Sua empresa está preparada para a economia do compartilhamento?

Sua_Empresa_Esta_Preparada_Para_A_Economia_Do_Compartilhamento

Por: CEZAR TAURION* Computer World

As tecnologias digitais estão transformando o mundo à nossa volta, as cidades que habitamos, a maneira como estudamos,  as formas como nos comunicamos e as economias em que vivemos. Estamos vivenciando o início do processo de crescimento de um modelo econômico muito interessante, impulsionado pelas tecnologias digitais, que traz profundas transformações em seu bojo. Entre elas, a economia do compartilhar, a “shared economy”.

As tecnologias digitais estão transformando o mundo à nossa volta, as cidades que habitamos, a maneira como estudamos, as formas como nos comunicamos e as economias em que vivemos. Estamos vivenciando o início do processo de crescimento de um modelo econômico muito interessante, impulsionado pelas tecnologias digitais, que traz profundas transformações em seu bojo. Entre elas, a economia do compartilhar, a “shared economy”.

Compartilhar é um hábito comum na espécie humana e agora, com a ajuda da tecnologia, ampliamos imensamente esta capacidade. Antes podíamos compartilhar apenas com pessoas próximas, que conhecíamos bem. Agora podemos compartilhar com desconhecidos, de outros países. Compartilhamos até nossas casas, pelo AirBnb. Em outros países como nos EUA, compartilhamos o carro do dia a dia (Getaround, onde você aluga seu carro para outros) ou a vaga de estacionamento (Parking Panda). É um modelo diferente do nosso modelo econômico atual, de ter a propriedade. O compartilhar é a expressão natural do que realmente queremos. Afinal, queremos ter uma máquina de lavar ou queremos a roupa lavada?

Se analisarmos o modelo de compartilhamento, vemos que há uma escala

crescente de participação coletiva. Vamos entender isso.

No modelo econômico predominante atual, apenas consumimos. Uma empresa nos vende um produto que criou e uma revista nos vende uma assinatura. Não participamos do processo de criação do produto ou da revista. Somos apenas consumidores.

Mas já convivemos com outros estágios, ainda incipientes, que mostram que estamos evoluindo em uma escala crescente de participação. Após o simples consumo temos o compartilhamento (pegar o conteúdo de outra pessoa e compartilhá-lo com outras) e a modelagem, quando remixamos ou adaptamos conteúdos de outros com nossos próprios e os divulgamos. O exemplo mais emblemático deste modelo é o Facebook, onde compartilha-se diretamente o conteúdo gerado por outros ou adaptamos textos de outras pessoas antes de compartilharmos publicamente. Passamos a ser prosumidores, ou produtores e consumidores de conteúdo.

A próxima etapa é o financiamento, onde endossamos algo em que acreditamos, investindo o nosso dinheiro. É o modelo de crowdfunding . O símbolo deste conceito é a plataforma Kickstarter, que já levantou mais de 13 milhões de dólares de 62 mil investidores.

Este modelo reduz a dependência de instituições financeiras tradicionais. O nível seguinte da escala é a produção, onde criamos conteúdo ou fornecemos nós mesmos produtos e serviços dentro de uma comunidade. Como exemplos temos o YouTube, o AirBnB, o Etsy e o TaskRabbit. O AirBnB já pressiona fortemente a indústria hoteleira tradicional.

E finalmente, temos a copropriedade, exemplificados pela Wikipedia e pelo modelo de software de código aberto (open source), como o Linux. Este modelo acabou com a velha indústria de enciclopédias e mudou a poderosa indústria de software.

Estes novos modelos, à medida que se entranham na sociedade criam novos valores e crenças, e afetam modelos de indústria já estabelecidos. Diminuímos a necessidade de um banco para um empréstimo ou mesmo da rede hoteleira para alugar um local de hospedagem.

Mas, o que está por trás destas iniciativas? Cooperação, confiança e reputação das pessoas e empresas envolvidas.

As normas deste novo conceito dão ênfase a colaboração (em vez de competição), não apenas como forma de realizar algo, mas como parte obrigatória do processo. Os modelos da economia colaborativa ou do compartilhar são impulsionados pelo veredito acumulado da sociedade. A reputação de cada um ou de cada empresa. É ela que garante que seu carro será devolvido e seu apartamento não será depredado.

Claro que as empresas que oferecem estas intermediações adicionam seguros, mas eles por si não são suficientes. Pensemos em um caso simples, de um apartamento. Se ele for depredado pela pessoa que o alugou, você terá a garantia dada pelo AirBnb que receberá indenização, mas inevitavelmente você terá que arcar com as inconveniências de obras e trabalhos enquanto o habita. Ninguém quer passar por isso.

O cerne do compartilhamento é o que chamamos economia da reputação (reputation economy). Reputação está para o mundo digital assim como o dinheiro para o mundo físico. Representa valor. Nesta nova economia seu histórico online vai se tornar tão ou mais importante quanto o seu histórico de crédito financeiro!

Na verdade valorizar a reputação não é novidade, tanto no mundo físico quanto no mundo digital. No mundo físico sempre buscamos fazer negócios com pessoas que conhecemos e acreditamos. As mercearias de antigamente demonstram claramente isso, quando o vendedor anotava seu nome e suas despesas. E você pagava depois, sem bancos intervindo no processo. Seu crédito era sua reputação com o dono da mercearia. A reputação do Brasil afeta o modo como investidores internacionais tomam sua decisão de investir ou não no país.

No mundo digital, o rating de livros da Amazon (as estrelas) ou o nível de reputação que você obtém em jogos como o World of Warcraft já são bem conhecidos. O que muda é a amplitude de informações que podem ser obtidas hoje para formar sua reputação no mundo digital.

Nossa pegada digital forma nossa boa ou má reputação. Ao usarmoss ferramentas digitais como AirBnB, Uber, eBay e outras, além de comentários e opiniões nas mídias sociais, riamos uma reputação que começa ser considerada algo de valor. Cada vez mais, as plataformas digitais estão permitindo obter informações de reputação sobre as pessoas. Se eu quiser descobrir se devo emprestar meu carro a você, posso dar um Google e olhar seu Facebook para ver se você é digno de confiança. Essa facilidade de se obter informação de reputação leva ao surgimento desta nova economia de reputação digital, que está mudando como os indivíduos compartilham valor.

Estamos ainda nos estágios de aprendizado, mas podemos imaginar até uma substituição parcial ou quem sabe até total (?) das tradicionais moedas por um comércio em plataformas com sistemas de troca que passam longe das finanças atuais... A explicação é simples. Nos próximos 10 a 20 anos, boa parte dos dois terços da humanidade que ainda não estão na internet estarão conectados, e esta imensa massa de pessoas vem de países onde o sistema financeiro das nações mais desenvolvidas não funciona adequadamente.

Portanto, é plausível supor que vão querer usar métodos mais flexíveis de comércio. Por isso, não é preciso muita imaginação para visualizar que nos próximos 20 anos, a economia do compartilhar e da reputação poderá ser o método majoritário de comércio do planeta. A consequência é simples: torna-se obrigatório entendermos como natureza do poder está mudando, quem o detém, como ele é distribuído e para onde está indo. Este será o desafio dos negócios para os próximos anos.

Vale a pena conhecer melhor o assunto. Recomendo duas leituras. Uma é o artigo “Entendendo o novo poder”, publicado pela Harvard Business Review, que debate a disputa entre o novo e o velho poder, bem como aprofunda a escala de participação coletiva e que pode ser acessado em http://www.hbrbr.com.br/materia/entendendo-o-novo-poder. A outra é o livro "Reputation Economics - Why Who You Know Is Worth More Than What You Have" de Joshua Klein.

 

*Cezar Taurion é é CEO da Litteris Consulting, autor de seis livros sobre Open Source, Inovação, Cloud Computing e Big Data